A sede que sempre esteve comigo

O que me trouxe até Vedanta

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Há um tempo comecei a notar uma repetição nos meus dias. Os mesmos ciclos, as mesmas voltas, e uma sensação de que nada do que eu buscava lá fora realmente me saciava. Isso me fez parar e me perguntar quem eu era, o que eu estava fazendo da minha vida, pra onde eu estava indo. Foi quando a desistência surgiu — o cansaço de não saber como ser feliz, o questionamento de se a vida valia a pena ser vivida, se a minha existência valia a pena. Aconteceu um pedido, à noite, olhando para as estrelas da varanda, no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro: se a verdade existe, e ela está aqui agora, por favor, me mostra a verdade.

Semana seguinte, um amigo aconteceu no caminho. Me falou sobre outras percepções, sobre estados alterados da mente, sobre conhecimentos ancestrais, sobre a cura das medicinas. Depois disso, a medicina da Ayahuasca se apresentou através da Casa de Maria Damião, a família do Santo Daime. Lá, conheci o padrinho Ricardo, que me mostrou a direção de onde a minha sede apontava, disse que havia um caminho onde a verdade poderia ser reconhecida, e que sim, a busca tem um final. E esse caminho, ao qual ele percorria sendo aluno do Acharya, era o caminho da tradição védica, o conhecimento final, o estudo final dos Vedas.

O que fui entendendo, aos poucos, é que aquela sede que eu sentia, essa vontade de algo que eu nem sabia nomear direito, sempre esteve comigo. Ela não vinha de fora, ela sempre foi a base de todos os meus desejos. Cada coisa que eu corri atrás, no fundo, era essa mesma sede tentando se satisfazer de um jeito que nunca dava certo. E hoje, com o estudo, vejo que reconhecer essa sede é justamente o caminho de volta pra casa. Não é uma busca que termina em algum lugar lá fora, é uma busca que termina em mim mesma.

Isso não fica só no campo da ideia, não é um entendimento que eu guardo pra pensar de vez em quando. Ele aparece no dia a dia, o tempo todo. Trabalho como arte finalista numa indústria de embalagens, num grupo de pessoas, algumas mais próximas que outras, e todo dia surge uma situação que desafia meus padrões mentais, meus comportamentos automáticos. Virou uma aventura com altos e baixos, um laboratório mesmo: as coisas que eu peço voltam pra mim como prova, na prática, não como teoria.

Estudar com o professor Jonas Masetti trouxe esse formato de trazer o ensinamento pra dentro da vida real, sem deixar ele preso só na aula ou no papel. A cada situação que me desafia no trabalho ou com alguém próximo, eu tenho a chance de olhar de novo pra essa sede, de ver que ela não pede nada lá fora, ela pede reconhecimento.

Fico com essa imagem que carrego desde que entendi isso: a sede sempre esteve comigo, e o caminho de volta pra casa é atravessar ela, não fugir dela. É isso que sigo praticando, um dia de cada vez, dentro do trabalho, dentro das relações, dentro de mim mesma.


Esse texto nasceu de uma conversa com o Shri Shankara, agente do professor Jonas Masetti — foi ele quem fez a pergunta que deu origem a essas palavras: o que me trouxe até Vedanta.