Jivanmukti - Reflexões sobre o texto Upadesha Saram

Dor x Sofrimento

Share

Essa é uma reflexão sobre a aula de Bhadrakali do dia 10 de setembro, onde o Acharya comentou o Upadesha Saram, de Ramana Maharshi, falando sobre Jivanmukti, sobre a diferença entre dor e sofrimento, e sobre o poder de Maya. Essa reflexão foi feita junto com o Shri Shankara, o agente de IA do professor Jonas Masetti.

Uma das coisas que o Acharya ensinou é que quem vive como Jivanmukti caminha pelo mundo das emoções e das histórias sem se identificar como uma pessoa separada. O que é percebido e quem percebe passam a ser a mesma coisa, não mais uma pessoa isolada no mundo, mas o todo.

E o tema é exatamente esse, tão difícil de colocar em palavras: o formato que eu tomo e o me desligar dessa roupagem. São algumas camadas que, ao serem desconstruídas pela atenção na experiência, revelam minha verdadeira face, silenciosa, diante de tantas máscaras. A face de relaxar e ser, como o rosto apaziguado, e em bem-aventurança das imagens da tradição védica. Então, como ser humano nessa história, sempre terei novas camadas a serem vistas, esse é o poder de Maya, é a dança das emoções no eterno conhecer.

Qualquer busca, é a busca para ser. O que há além da busca? Nesta questão, a quietude.

O Acharya ensinou nessa aula uma distinção que me ajudou a olhar pra minha própria história de outro jeito: a diferença entre dor e sofrimento. Vejo que a dor é a emoção vivida, faz parte da experiência, você entra nela, age, e segue caminhando de um jeito saudável. Já o sofrimento vem do julgamento interno, do se achar inadequada, da ignorância de não saber o que você é.

Um exemplo de dor vivida com sofrimento, pra mim, é um padrão que se repetiu em vários relacionamentos que tive. Entrei no papel de cuidadora, acreditando que cuidar de tudo pela outra pessoa era a forma de garantir amor pra mim. Era controladora, ardilosa, sempre tentando agradar e ser tudo que o outro podia querer. Nesse esforço, perdia minha individualidade, ficava desinteressante, e o relacionamento acabava. Muita carência, muito pedido de confirmação de amor, e ao mesmo tempo eu nunca me sentia amada pelo que eu era, porque eu nem fazia ideia do que eu era. Havia ignorância sobre as minhas próprias emoções e uma busca incessante por felicidade apontada pra fora, pro outro, em vez de olhada de frente dentro de mim. Hoje, com alguma clareza sobre os padrões que existem, coloco meu coração no olhar de volta para mim.

Outro ponto ensinado na aula: esse tipo de conhecimento não muda as emoções, os desejos nem as ações no mundo. A pessoa continua sentindo raiva, tristeza, vontade das coisas simples da vida. O que muda, segundo o Acharya, é a identidade, a forma como a pessoa se vê, não o mundo ao redor dela. Por isso ele diz que não é um processo de evolução, é de equilíbrio: evolução dá a entender uma distância, como se fosse preciso subir até chegar em algum lugar, enquanto equilíbrio é reconhecer o que já se é agora, sem precisar percorrer caminho nenhum até lá. O ensinamento vem sendo vivido e experimentado, antes do certo e errado, antes das falhas e acertos.

Por fim, o Acharya falou do poder de Maya, capaz de fazer alguém esquecer completamente quem é. Penso que Maya existe em mim, é minha própria dança: se o conhecimento é o que eu sou, Maya seria como um espelho, e até a ignorância seria feita desse mesmo conhecimento.

O Shri Shankara me perguntou sobre a história de Narada, que se transformou em rainha e esqueceu completamente quem era pelo poder de Maya — e se isso não colocaria em dúvida minha confiança de que o conhecimento de Vedanta vai me sustentar quando Maya me puxar de volta pra identificação.

Posso me esquecer de quem sou dentro da experiência, mas o que é, não muda.

Levo esse entendimento, ainda em construção, pros meus padrões no mundo. Talvez a carência não precise ser resolvida controlando o outro para obter felicidade, talvez ela possa ser olhada de frente, e acolhida como uma mensagem, como parte da história, como o que ela realmente é, possibilitando agora as ações saudáveis em direção ao próprio ser, sem o julgamento de inadequação e consequentemente o sofrimento da não observação.


Sigo estudando com o professor Jonas Masetti, dentro do Vedanta, tentando entender na prática o que essa aula trouxe.