Além das palavras
Observações sobre Percepção e Identificação em Espaços Públicos
Hoje, na volta para casa, percebi crianças desesperadas e desejosas por não fazerem contato humano. Elas se escondiam atrás de objetos e fingiam ser aqueles outros objetos.
No mundo dos nomes e das formas há uma infinidade de conhecimento sobre eles, tudo muito complexo e infinito na investigação. Ao olhar para o mundo, o olhar se perde. São realmente muitas palavras.
Sutilmente, vi uma criança mais próxima de mim. Ela conhece essa posição.
É assim:
“Alguém passou pela roleta. Tem uma cadeira vazia ao meu lado. Está se aproximando. Viu a cadeira. Vou olhar para o lado. Estou aqui olhando a paisagem. Vou franzir a testa como se estivesse pensando em algo distante. E a minha mão? Vou colocar na janela. Estou com fones de ouvido, então vou bater os dedos na borda da janela, assim mostro que estou ouvindo música e bem longe daqui. Não te percebi e não estou tendo pensamentos sobre meu comportamento na sua chegada. Dedos batendo, só ouvindo música. Estou assim.”
“Ufa, passou direto. Mas, peraí, não gostou da cadeira? É porque estou aqui e estou agindo estranho? Faltam algumas paradas pra eu descer. Pessoas embarcarão. Tudo bem. Olha só, quantos celulares. Há um sol lá fora. Eles perceberam? Não é só o sol. Uma bola brilhante gigante flutuando no espaço, e dá pra ver daqui. Um centro de luz. Uma bola que emite calor. Incrível.”
“Eu sou aquele que vê o sol.”
Muitas palavras...
A mais relevante e que sustenta os verbos, adjetivos e substantivos é o sujeito. Sem ele nada pode acontecer, se é que você me entende.
O que sustenta esse mundo de pensamentos? É realmente incrível.
Tão sutil e belamente arquitetado. Sutil a ponto de escapar a todo instante, belamente arquitetado por tão somente entrar no conceito de arte.
Eu sou aquele que vê, eu sou aquele que está, eu sou aquele que anda. Eu sou aquele que está comendo, eu sou aquele que está digitando, eu sou aquele que pensa.
O mesmo Eu. Poderosíssimo. Infinito para frente, infinito para trás, mas que se dissipa no meio.
Nesse exato instante, há um Eu?
Nada de diferente entre o Eu que olha o sol e o Eu que mexe no celular. O mesmo Eu. Ele não é o problema.
Então, onde está o erro? Onde está o problema insolucionável aqui?
Os pensamentos são o mundo dos nomes e formas. Mas eles não estão dentro da minha cabeça, porque “minha cabeça” é um nome e uma forma. Meu corpo é nome e forma.
Apareceu uma conclusão, apertou o peito, uma frase sustenta a emoção e o comportamento, eu sou aquele que está causando desconforto, sou aquele que agiu estranho, sou inadequado, sofrimento.
Muitas, muitas palavras.
A criança mais próxima é a que me acompanha, que viu as frases, acreditou nelas como verdade, percebeu as formas e os nomes e carregou elas com sensações advindas de conceitos muito bem formulados. Vai estar sempre aqui.
A sorte é que dá para arriscar escolher o instante, o descontrole, o imprevisível, o surpreendente.
Se eu olhar diretamente para ela e falar: bora? Ela bora. Ela aceita o risco. Vale a pena, sabe?
Ela brilha no incontrolável. Ela chora na sinceridade, solta gargalhada, faz careta, fala o que está incomodando, integrada no instante, ela brilha.
E o melhor, ela está muito ocupada sendo para prestar atenção nos nomes e formas, os nomes e formas não alcançam ela. Ainda estarão lá, se multiplicando, dançando, e aí ela só dança.
Percorrendo as linhas desta reflexão, que você, leitor, encontre não apenas muitas palavras, mas um espelho refletindo nossa jornada comum. Aqui, onde a percepção silenciosa nos une, testemunhamos juntos o processo de desidentificação, a integração com o ser. No caminho do Vedanta, este espaço se revela como uma dança da mente e do coração, além dos nomes e formas. Que possamos, lado a lado, explorar o horizonte infinito do autoconhecimento, reconhecendo no silêncio a verdade de sermos o Um sem um segundo.